Por Jordan Dafné
Com lápis e giz, boca e nariz, chão, salto e triz, Caetano Veloso descreveu a vivência de três travestis soteropolitanas que se vendiam na praça. Ao mesmo tempo que a canção resgata a realidade das travestis na década de 70, época em que a prostituição se firmava como principal meio de sobrevivência dessas pessoas, ela revela um contraste com a vida das travestis na modernidade. De 1970 a 2016 o que mudou? Quem é que diz? Quem é feliz? Quem passa?
Nascida em 1956, em uma casa no Pelourinho, a estadia de Martinha perto de sua família não durou muito. Aos 7 anos, vestia-se com trajes ditos femininos e aproveitava seu cabelo liso para simular franjas e tocá-lo delicadamente, como as mulheres faziam. Enquanto a prática era entendida pelo pai de forma indiferente, na mãe despertava uma fúria intensa: “Prefiro ter filho bandido a ter filho pederasta”, ela dizia.
Na escola, a direção não permitia que um garoto com comportamento tão feminino permanecesse frequentando as aulas, pois seria uma “influência negativa”. Com esse argumento, Marta foi expulsa do Colégio Azevedo Fernandes, também no Pelourinho, e não desejou nunca mais estar em um lugar onde não poderia ser ela mesma.
Os terrores de casa ficavam mais intensos, as ofensas se transformavam em ameaças cruéis. A jovem Martinha dormia com medo de ser atacada por uma injeção de estricnina (veneno para rato), como sua mãe lhe prometia repetidamente. A angústia do ambiente doméstico fez com que, aos 12 anos, Marta saísse de casa e fosse tentar a vida nas ruas.

Martinha, 60 anos, sobreviveu a ditadura militar e ao preconceito nos 80.
Sem opção, procurou emprego em casas de família, mas a humilhação parecia lhe perseguir. Era obrigada a levantar de madrugada para preparar o café, sendo o tempo inteiro desmoralizada pela sua condição de travesti. Revoltada, Marta retornou para as ruas a procura de algum destino.
A solução foi encontrada nos prostíbulos da Ladeira do Mijo, no Centro Histórico. Lá, ela se abrigava junto a outras travestis e foi introduzida na prostituição. O primeiro cliente era um doutor muito rico que atendia no último andar do edifício A Tarde. Sem qualquer apreensão, Martinha entrou na sala que ficava em um dos últimos andares do prédio. Foi tratada de forma indiferente. Não havia espaço para qualquer conversa. Sem perder tempo, se aproximou daquele corpo que aparentava ter cerca de 40 anos e fez o seu trabalho.
Com a instituição do regime militar em 1964, a lógica policial passava a ser pautada no que era considerado como bons costumes sociais. Nem as travestis, nem a prostituição encontravam-se enquadradas nisso. Durante a ditadura, uma onda de caça às travestis tinha sido iniciada.
Pega pela polícia mais de 200 vezes, Marta era obrigada a fazer serviços de limpeza nas celas da Delegacia de Jogos e Costumes, no Centro Histórico. Tinha que tirar toda a maquiagem e voltar para casa “feito homem”.
Com hematomas na cabeça e na perna, o corpo de Martinha guarda até hoje as cicatrizes da tortura policial. As palavras proclamadas ainda soam em nos ouvidos de Martinha: “Você é viado! Já viu viado ter vez? Vocês levantam falsa bandeira!”, gritavam os militares.
Após o final da ditadura, o sol da democracia não brilhou tão forte para o público LGBT. O início da década de 80 estava marcado pela descoberta da AIDS, que no momento era conhecida como peste gay. Martinha relata que não podia andar tranquilamente nos lugares públicos sem que as pessoas começassem a gritar “AIDS” histericamente ou pegar ônibus cheios sem ser expulsa.
O temor do HIV foi utilizado também como uma nova forma de proteção. Toda vez que alguém tentava agredir as travestis elas mordiam giletes escondidas na boca e sangravam demasiadamente. O medo do “sangue contaminado” desesperava os agressores e fazia com que eles fugissem.
Para concretizar o desejo da casa própria, Martinha dobrou seu turno de prostituição. Do dinheiro, só era retirado a quantia necessária para comer e pagar a moradia, todo o resto ficava escondido dentro do colchão onde dormia. Depois de anos de arrecadação, Marta desviou dos caminhos cantados por Caetano Veloso e ao invés de brilhar em Paris, viajou para a Itália, onde sobreviveu também por meio da prostituição.
A vida na Itália permitiu que ela juntasse muito dinheiro dentro do seu colchão, somando assim R$ 14 mil. Toda a grana foi empregada na compra de um casarão na Baixa dos Sapateiros, onde Martinha viveu tranquilamente por 20 anos e abrigou idosos e outras travestis, um pequeno pensionato. Na noite do dia 9 de setembro de 2013, dois homens estranhos bateram à porta do casarão de Martinha solicitando um quarto. Inconformados, um dos homens declarou: “ Não tem vaga, não, viado. Vou te mandar um doce!”.
Logo em seguida, o casarão foi atacado com uma bomba molotov (mistura de substâncias químicas inflamáveis) que espalhou chamas por todas as partes. Martinha e seus hóspedes fugiram pela janela. O corpo de bombeiros chegou ao local sem água e solicitou o auxílio de carro pipa de Lauro de Freitas. A distância fez com que o casarão fosse consumido pelas chamas por inteiro.
Sem saber para onde ir, Martinha dormiu por semanas nos escombros da sua casa, até que conseguiu um auxílio moradia através do governo. Atualmente vive de aluguel na Fazenda Grande do Retiro, mas sonha com a recuperação da casa.
Com uma mente atormentada por pensamentos suicidas e uma vida danificada pela discriminação, Marta Maria de Sá declara em alto e bom som: “Eu não sou nem nunca fui uma cidadã. Estou apenas vegetando nesse mundo, esperando a morte. Isso é o que fizeram comigo”.
Trajando saia longa e regata básica, complementadas com argolas douradas, óculos de sol na cabeça e maquiagem leve, Tanucha Taylor, travesti de 40 anos, afirma que tem bom gosto na hora de se vestir. “O meu estilo é o bom senso, cada ocasião pede uma roupa específica. Posso ser simples, e também posso ser luxuosa”.
Respeitar as regras, sejam elas de moda, sociais ou institucionais é um dos princípios de Tanucha. O entendimento de que pertencia a uma minoria social, foi a principal motivação para que ela tentasse sempre andar na linha. Entende que para ser respeitada é necessário se dar ao respeito e também respeitar os outros.
Ao andar nas ruas, Tanucha relata que não sofre mais com piadinhas ou olhares de desprezo. Suas conquistas impõem respeito onde quer que ela vá. Ressalta que, se um dia acontecer, tem fundamento e experiência para por cada um em seu devido lugar. “Se falam por trás de mim, é porque me respeitam na minha frente”, afirma.

Tanucha Taylor, 40 anos, impõe respeito por onde passa.
Tanucha sempre acreditou no poder da educação, isso fez com que ela permanecesse na escola até o último ano do ensino médio. Mesmo com apenas 14 anos, quando saiu da casa dos pais, no interior do estado, em Ipirá, para desbravar a capital baiana, não deixou de investir nos estudos.
Formou-se no colégio estadual Severino Vieira, no bairro de Nazaré. Seu jeito feminino chamava a atenção e provocava piadas entre os colegas, mas Tanucha tinha muita certeza do que era, e a plena consciência de que não havia nada de errado naquilo. “Eu nunca fui muito de olhar para os lados. Sempre fui de olhar para a frente e fazer aquilo que aquilo que eu desejava”, ressalta.
Na capital, Tanucha se hospedou na Associação dos Estudantes Ipiraenses (Aeipi), com cerca de 50 pessoas. Certa noite, ao voltar da Caverna, boate que frequentava na rua Carlos Gomes, se deparou com um dos estudantes da associação dormindo despido em sua cama. Enquanto tentava acordar o garoto, ele levantou gritando e anunciando que Tanucha estava tentando abusá-lo.
Tanucha foi julgada em uma assembleia com os dirigentes do local, que eram os próprios estudantes. Na ocasião, foi dado um prazo de um mês para que ela encontrasse um novo lugar para morar. O dinheiro que a jovem recebia da mãe era muito pouco para pagar um aluguel. A única opção era enfrentar o mercado profissional, restrito para travestis na época. Com esforço, conseguiu trabalho em casas de família e alugar um quarto próximo à estação da Lapa.
A ambição lhe levou a uma lembrança da infância, onde costumava ir até aos salões de beleza e ajudar lavando cabelos. Apoiada nisso, ela buscou um curso de cabeleireira, que pagou com a ajuda de amigos. Com dois meses de curso ela conseguiu um emprego de carteira assinada no salão Charmant Penteados, em Ondina. Por lá permaneceu por dois anos, e, aos 18, foi contratada para trabalhar em um salão ainda maior, o Instituto de Beleza Novos e Velhos.
Apesar da ajuda que o trabalho nos salões de Ipirá havia dado para Tanucha permanecer na cidade, na infância, o ato não era bem visto nem pela mãe, dona de casa, nem pelo pai, caminhoneiro de mente conservadora. Taylor expressava sua vontade de se livrar do disfarce masculino em um diário. As confissões foram posteriormente lidas por uma tia e reveladas para a mãe, que condenava o ato por medo dos problemas que a filha poderia enfrentar diante de uma sociedade tão preconceituosa.
As conquistas de Tanucha foram fundamentais para desconstruir esse paradigma do pai. Atualmente, ele respeita a identidade de gênero de qualquer pessoa e se refere a Tanucha orgulhosamente. “Essa é a minha filha!”, afirma diante dos amigos. A mãe faleceu há 16 anos e levou com ela parte de quem Tanucha é. “Eu posso conquistar tudo nessa vida, mas nunca me sentirei totalmente completa sem ela aqui do meu lado. É uma das perdas mais tristes de toda a minha história”, contou.
Tanucha decidiu expandir seus horizontes e viajar para a Itália. Morou por 15 anos no país e conquistou a cidadania italiana, da qual se honra muito. Muito vaidosa, aproveitou sua estadia na Europa e fez aplicação de silicone nos seios e na bunda, que as deixaram extremamente satisfeita. Quando retornou para o Brasil, foi para São Paulo e realizou uma cirurgia plástica de feminização, na qual raspou o pomo de adão e afinou o rosto. Uma das suas referências foi a atriz Elizabeth Taylor, famosa nos anos 50 pela sua beleza considerada estonteante, e de quem Tanucha retirou a inspiração para seu segundo nome.
A integridade permanece como o princípio norteador de Tanucha Taylor. Viver na tentativa de ser alguém melhor é sua principal forma de ativismo. É a sua reivindicação por uma humanidade, que embora ela sempre tenha reconhecido em si mesma, a sociedade lhe negou.
Bermudão, camisa de botão e sapatênis de cores escuras são tudo o que Mahylle, auxiliar administrativa de 20 anos, repudiou durante sua infância e boa parte da adolescência. Mahylle se livrou dos padrões masculinos e se mostrou como mulher ao mundo aos 18 anos. Antes disso, vestia-se “como homem” dentro de casa, para que os pais não percebessem, mas fugia para casa dos amigos onde finalmente poderia ser o que ela realmente sempre quis.
As roupas masculinas aprisionavam o corpo da jovem travesti, e apesar de já se reconhecer com essa identidade desde sempre, o medo da reação da sociedade e da família, a impediram de expressar livremente o seu gênero.

Mahylle, 20 anos, desconstrói preconceitos de forma didática.
Mahylle completou o ensino médio aos 17 anos no Colégio Estadual Luiz Tarquínio, no bairro da Boa Viagem. As piadas entre os garotos da escola eram inevitáveis; apelidos como bichinha e baitola eram tão frequentes que com o tempo se tornaram indiferentes. No entanto, seus amigos e professores jamais permitiam que a violência se prolongasse. “Meus professores eram maravilhosos. Jamais deixavam que me diminuíssem na frente de qualquer um deles. Ensinaram a muita gente que elas tinham a obrigação de me respeitar”, contou.
A partir dos 18, a primeira transformação foi deixar o cabelo crescer, causando estranhamento na mãe que começava a se preocupar com o mercado de trabalho e com os comentários da vizinhança. “Vai sair desse jeito? Vão pensar o que sobre você?”, “Não vai cortar esse cabelo, não? ”, retrucava.
Por ser uma das poucas travestis que saiam à luz do dia no bairro de Pernambués, Mahyelle afirma que não olhavam para ela como se fosse um ser humano, mas sim como uma criatura estranha. Isso despertou nela uma enorme fúria, que posteriormente transformou-se em mecanismo de defesa.
A partir daí, nenhum comentário passava despercebido por ela, qualquer piadinha era retrucada com discursos empoderados. Discussões na rua tornaram-se parte do cotidiano da travesti, deixando-a ainda mais vulnerável a ataques transfóbicos, pois toda vez que aumentava o tom de voz para discutir com alguém corria o risco de apanhar.
Foi então que Mahyelle conheceu Tuka Perez,32, outra travesti do bairro de Pernambués que lidera o projeto pró LGBT do bairro, chamado Linha de Frente. Tuka a ensinou como lidar com as situações de preconceito no dia a dia de forma politizada, esclareceu conceitos, elencou os perigos e mostrou que reagir de forma combativa nem sempre era o melhor caminho.
Tendo um melhor conhecimento da causa, Mahyelle sentava lado a lado com a mãe na cama do quarto e contava que não se tratava de algo que ela escolheu, que somente com aquele cabelo, com aquela roupa, ela poderia ser feliz. A mãe percebia que mesmo se vestindo daquele jeito Mahylle permanecia estudando e sendo uma pessoa com bons princípios, nada mudaria.
O irmão sempre mostrou-se de braços erguidos para a causa de Mahyelle, referindo-se a ela pelo seu nome social, mesmo quando ninguém o fazia. O pai também reage positivamente, tudo graças aos esclarecimentos da própria filha. Hoje, os três vivem juntos e respeitam as formas de vida um do outro.
Diferente da realidade narrada por Caetano, a jovem nunca precisou se prostituir. Ao terminar o ensino médio ingressou no programa Adolescente Aprendiz, onde era a única travesti competindo por uma vaga de auxiliar administrativa em uma faculdade particular de Salvador. Ela conquistou a vaga e ingressou no mercado de trabalho. No entanto, a convivência não era plenamente harmoniosa.
Uma das coordenadoras do trabalho de Mahylle se recusava a chamá-la pelo seu nome social, causando constrangimentos. Certo dia Mahylle parou de atender pelo nome civil e respondia apenas aqueles que a chamassem pelo nome social, fazendo assim com a própria coordenadora percebesse seu equívoco.
Neste ano, Mahylle ingressou no curso de contabilidade na Faculdade de Ciências Gerenciais da Bahia. Apesar de amar números, desistiu de concluir para ingressar no curso de moda a partir de 2017, outra grande paixão.
Atualmente, Mahylle trabalha no Centro Municipal de Referência LGBT, no Rio Vermelho e vive as alegrias de um relacionamento amoroso ao lado de Uriel Henriquez,um homem trans. A única coisa que ainda assombra a mente da jovem auxiliar administrativa é o regresso das ideias e do respeito, pois segundo a mesma, este é o medo da invalidação do sofrimento e da luta que travestis e transexuais cravaram no passado para que ela esteja aqui hoje.
Identidade de gênero: É a identificação que cada pessoa tem com o gênero feminino, masculino, ou de uma combinação entre os dois. Nem sempre corresponde ao sexo atribuído durante o nascimento e por isso pode agregar modificações corporais, trejeitos e vestimentas comuns ao sexo oposto.
Orientação sexual: Diz respeito a atração sexual e afetiva que uma pessoa pode ter pelo mesmo gênero (homossexual), pelo gênero oposto (heterossexual), por mais de um gênero (bissexual), por nenhum deles (assexuados) ou outras denominações.
Transexual: É a pessoa cuja a identidade de gênero não corresponde ao sexo designado no nascimento. Exemplo: alguém que, ao nascer, foi designado como sendo pertencente ao sexo masculino por questões biológicas visuais, mas que se entende como pertencente ao feminino. Algumas pessoas trans expressam a necessidade de modificarem seus corpos através de procedimentos médico-cirúrgicos para se adequarem ao gênero do qual se identifica. Porém, há pessoas que são trans que não passaram por nenhum procedimento.
Travesti: Pessoa que nasce do sexo masculino ou feminino, mas que tem sua identidade de gênero oposta ao seu sexo biológico. Exemplo: alguém que nasce com características biológicas atribuídas ao masculino, mas que se identifica com os comportamentos femininos. Algumas travestis modificam seus corpos com cirurgias, mas não é uma regra. Diferentemente das transexuais, as travestis não desejam realizar a cirurgia de redesignação sexual (mudança de órgão genital).
Transgênero: Além de incluir as pessoas que não se identificam com o sexo biológico, engloba também as pessoas que transitam entre os gêneros e não se definem unicamente como femininas ou masculinas.
Transformista: Indivíduo que se veste com roupas do gênero oposto movido por questões artísticas.
Androginia: Termo genérico usado para descrever qualquer indivíduo que assuma postura social, especialmente a relacionada à vestimenta, comum a ambos os gêneros.