O bispo do cartaz

Por Roni Pereira

O louco já foi de tudo um pouco. Na Renascença, a “loucura” era sinal de sabedoria. No século 18, virou maldição, dando a quem a possuía um passaporte para a marginalidade, ao lado das prostitutas, dos bêbados e vagabundos. Anos mais tarde, o músico Sine Calmon colocou o louco baiano no lugar dos que estão acima das maldades do mundo. E. R. Bispo, 38 anos, é o “maluco que sabe”. Ele é o Bispo do Cartaz. Quem lê suas mensagens escritas em muros, asfaltos e pontos de ônibus em Salvador não vê sinais de lucidez. “Bispo”, ao contrário de “Bispo do Rosário”, artista plástico carioca considerado louco por alguns e gênio por outros, nunca ficou internado em hospitais psiquiátricos. Suas únicas “artes” são as mensagens políticas e sociais que escreve com pedaços de gesso encontrado no lixo em cartazes de papelão.

Há cerca de três anos, E.R Bispo espalha pela cidade cartazes de papelão com frases sobre questões sociais e políticas. | Foto: Heitor Oliveira

Bispo é um homem de pele negra, alto e cabelo crespo. Ele mora em um ponto de ônibus enfeitado com seus cartazes no Campo Grande. É um dos 22.498 soteropolitanos em situação de rua e passa o dia como um observador da vida urbana. Sine Calmon, autor de “O Maluco que sabia”, afirma que inspirou em si mesmo para fazer a música. Segundo ele, ser louco hoje é rejeitar a violência. “A Bíblia diz para ser maluco para o mundo e sábio para Deus”, diz Sine.

Para os amigos, Bispo não é normal. “Ele parece ter distúrbio mental”, diz um morador de rua que não quis se identificar. Bispo não dá um pio. Nem para pedir esmolas. “Nunca vi falando com ninguém”, diz Adriano Severino, artista e, assim como Bispo, morador de rua. Os pedidos de ajuda ficam escritos nos cartazes e nas caixas de papelão espalhadas pela rua.

Além de ser um observador, Bispo é um andarilho. Diariamente, anda da Praça da Piedade até o Campo Grande. Aos domingos, vai do Campo Grande até a Barra. De vez em quando, caminha pela Avenida Sete e vai até o Pelourinho. Sempre acompanhado de seus cartazes.

O silêncio só desaparece quando é convidado para conversar. O sujeito quieto dá lugar a um homem articulado que fala alto para expressar sua indignação com as coisas do mundo que observa. As frases são carregadas de opiniões políticas e sociais. Em um cartaz pendurado no Campo Grande, por exemplo, denuncia sua condição marginal: “Não tenho acesso à saúde, educação e direitos humanos”, diz.

Em outra placa, as críticas dão lugar à paranoia. Bispo diz que é observado. Escrito no chão da Praça da Piedade, em frente à Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Bispo denuncia: “Colocaram um GPS em mim pra ver se serve para roubar banco. Há 15 anos estou com infecção causada pelo GPS. Agora estou marcado para morrer”, diz a mensagem, que tem sua assinatura. Em paredes da Avenida Contorno, o mesmo apelo: “Vocês podem estar com um GPS implantado no corpo. Eu estou com um no meu.”

Frases de E.R. Bispo na Avenida Contorno. | Foto: Maria Ísis

A sensação de perseguição o acompanha desde a época que viveu em São Paulo. Segundo relata, Bispo foi acusado por duas emissoras de televisão, a TV Globo e a TV Bandeirantes, de ser ladrão. Ele diz que havia saído de Feira de Santana para trabalhar como pedreiro na construção civil, na capital paulista. “Lembro de ter escutado na rádio que havia proposta para milhares de pessoas”, diz. A caminho do novo trabalho, o primeiro sinal de que estava sendo vigiado. Bispo parou em frente a um bar e tomou um susto quando se viu nos telejornais. Foi parar nas ruas. Diz nunca ter sido preso. “Não devo nem um real a ninguém”, se orgulha. Como o Profeta Gentileza, Bispo começou a escrever mensagens em lugares públicos nas ruas . Tornou-se visível. Teve, então, a ideia de produzir cartazes na capital paulista, característica que tem até hoje. Ficou em São Paulo ainda por nove meses até adquirir uma passagem para Salvador. De avião. Como? Não se lembra como conseguiu.

Mas algumas mensagens ele diz ter se arrependido de ter escrito. “Eu escrevi muita besteira [em São Paulo e em Salvador] e peço desculpas à sociedade por isso”. Ele até fez um cartaz para pedir desculpas. Bispo sequer completou o ensino médio, mas diz e escreve frases que fogem do senso comum. Prefere falar de cidadania e se mantém otimista diante da crise política no país, sem crer na máxima que diz que “todo político é ladrão”. “Se você encaixa essas ideias em sua cabeça você degrada a sociedade. Em toda classe há gente ruim, não podemos generalizar. Se você não votar, trabalhar e pagar imposto, não tem moral para reclamar da situação do país”, diz.

Bispo não é de muito bate-papo, mas com o dono da banca conversa todo dia. Com o dinheiro das esmolas, compra jornais para se informar. “Estou desligado desde 2013. O presidente é o Michel Temer, não é?”, questiona. “Sei disso porque leio os jornais e também porque vejo outras pessoas falarem”, afirma.

A canção de Sine Calmon fala sobre “andar com fé”. Bispo diz seguir esse lema. Caminhando pelas ruas da cidade, diz acreditar que somente as pessoas são capazes de ajudá-lo. “Desacreditar na justiça pode ser ruim para você”, aconselha. Tudo o que Bispo quer é tranquilidade.

 

Gênios e loucos

O Brasil teve outras personalidades urbanas marginalizadas que dividiam a opinião do público a respeito da linha tênue entre loucura e genialidade. O CORREIO produziu essa galeria que reúne as histórias de seis “malucos que sabiam”.