No balanço dos amores

 Por Nilson Marinho

Em meio ao caos urbano do bairro do Comércio, em Salvador, João Oliveira Mota, 65 anos, velho pescador de alcunha ‘gringo’, parece alheio às buzinas dos carros e aos mendigos que importunam turistas recém-chegados à capital baiana.

Nesse cenário de agitação, de uma das zonas comerciais mais tradicionais da cidade, apenas dois personagens aparentam estar em perfeita sintonia: o pescador e o mar. Entre eles, uma história de meio século de cumplicidade, respeito e muitos amores. “Além das mulheres, a minha grande paixão é o mar”, diz Gringo, ao se referir à Baía de Todos-os-Santos.

Assim como ele, outros cerca de 130 mil pescadores baianos, cadastrados na Superintendência Federal da Pesca e da Aquicultura da Bahia (SFPA/ BA) , são conhecidos no imaginário popular como galanteadores e contadores de histórias fantásticas. Nos versos das músicas praieiras de Dorival Caymmi, esses profissionais também são conhecidos como homens heroicos, corajosos e destemidos.

João Mota, conhecido como Gringo, 65, velho pescador aposentado do mar e da vida boêmia. | Foto: Heitor Oliveira

 

Para Marielson Carvalho, autor do livro “Caymmianos: Personagens das Canções de Dorival Caymmi” e professor da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), na canção de O Bem do Mar, faixa do primeiro álbum do cantor e compositor baiano Dorival Caymmi, o pescador, um dos personagens da música, é atraído pelo canto da sereia para entrar no mar. “É seu destino como pescador, do contrário, não seria um pescador. Vive dele e com ele a vida inteira. Ele carrega consigo esse mar, calmo e tormentoso ao mesmo tempo”.

Gringo é a personificação dessa ambiguidade. A juventude foi de agitação, no mar e na terra. Ele, que recebeu o apelido por conta dos seus olhos azuis, era disputado pelas “mulheres da vida”.  Na época, a habilidade com as palavras e o físico avantajado, fruto do esforço diário da puxada de rede, ajudava o pescador a ser cortejado nos portos em que atracava. “De repente, aparecia uma, duas, três mulheres, todas em busca de uma prosa e um serviço”, conta ele.

Desde que perdeu os pais ainda na adolescência, Gringo passou a viver perambulando pelas ruas do Centro Histórico. Foi lá, nos prostíbulos da Rua do Maciel de Cima, no Pelourinho, que ele passou a ser um grande frequentador de bordéis. “Como eu era muito alto para a minha idade, conseguia entrar em qualquer um. Foi aí que eu tomei gosto pela coisa. Só parei mesmo ano passado. A idade vai chegando e aí já sabe, né?”, lamenta. Foi em uma dessas idas que ele conheceu Maria das Graças do Carmo, uma prostituta pernambucana conhecida por dar preferência a fazer programas com estrangeiros. E aí, o que era tempestade, virou calmaria.  

Como Gringo costumava levar as mulheres para passear em alto mar, não foi diferente com a moça. Do Carmo passou a aceitar os convites dele para os passeios a bordo do seu pequeno barco, apelidado de Pugliese e, aos poucos, a relação foi ficando séria. “Foi com ela que tive meu filho, hoje com 32 anos. Moramos juntos por cerca de cinco anos, até ela resolver voltar pra prostituição”. Apesar da separação, os dois mantiveram a amizade. Foi Gringo que cuidou de Do Carmo, antes de ela falecer, aos 40 anos, cega e com complicações causadas pela diabetes.

Aposentado da vida boêmia, quando não está em alto mar, o velho pescador passa os dias a olhar as mulheres, sentado à beira do píer do Mercado Modelo, no Comércio, na companhia de seu fiel amigo, um vira-lata chamado Negão. “Faz dois meses que eu não entro em alto mar. Quando estou aqui, sinto saudades do mar; quando estou no mar, sinto saudade das mulheres”, brinca.

Hoje, Gringo mora em um sobrado na Praça Visconde de Cayru, e divide espaço com um amigo. Na década de 80, o local era um famoso bordel da Cidade Baixa, o Tabuleiro da Baiana, nome de uma canção de composição de Ary Barroso e interpretada por Caymmi. “Pescador é um sujeito muito fantasioso, foi ele quem criou Iemanjá, para poder ter uma companhia feminina ao lado dele. Sei que um dia vou ter que desistir do mar, assim como das mulheres também. Estou ficando com o casco desgastado”, avalia.

“É bom passar dias no mar e sentir saudade da terra, porque o melhor da vida é o reencontro”, filosofa Gringo, observando a chegada de navios turísticos ao cais e a partida das pequenas embarcações que deixam a península em direção às ilhas da Baía de Todos-os-Santos.

 

 

 

A imensidão e os mistérios do mar não assustam quem em terra teve que lidar com as desventuras da vida. Pelo contrário, serve de refúgio para esquecer a dor e a saudade de quem em vida trouxe muita felicidade. “Aqui eu busco a paz, longe de tudo e de todos”, diz o pescador José Souza, 49, que há 26 anos desbrava o litoral baiano em busca de pescados, a bordo de navios ou em pequenas embarcações que beiram a costa.

Embora o pescador seja muito conhecido pelos 1.444 associados da Colônia de Pescadores do bairro do Rio Vermelho, por lá pouco se sabe do paradeiro dele. Alguns juram que Souza ou “Tarado”, como é conhecido pelos colegas de ofício, quando não está no mar, costuma aparecer no píer do Mercado Modelo, no bairro do Comércio. Outros afirmam que o local escolhido por ele, em suas breves passagens por terra, é o bairro da Ribeira. No entanto, nas duas localidades pouco se sabe o local exato onde o pescador costuma comercializar seus peixes e frutos do mar. “Difícil encontrar Souza em terra, mas ouvi dizer que ele costuma atracar na Feira de São Joaquim”, informa uma moradora da Ribeira.

É justamente na Feira de São Joaquim, no bairro da Calçada, que Souza atraca o seu barco, sempre ocupado descarregando os pescados ou fazendo pequenos reparos no casco da embarcação, que leva o nome de Lucas Messi. Quando perguntado pelos desconhecidos o porquê do apelido, Souza logo esclarece o motivo “Quando eu era jovem, costumava frequentar muitas festas e sempre fui muito mulherengo”, diz ele. Hoje, o pescador dispensa o título de galanteador e pouco comenta sobre as noites na companhia de várias moças. Prefere falar de uma única mulher, aquela que foi sua esposa e que ele amou tanto quanto o mar.

“Você quer saber da parte boa ou ruim da minha história? Bom, a boa é que consegui construir uma família linda. A parte ruim é que eu perdi a pessoa que eu mais amava na vida, a minha mulher”, diz Souza, ao procurar palavras para descrever a dor da perda da sua esposa, morta há quatro anos em um acidente de carro.

Para o professor de Literatura e Cultura da Uneb, Marielson Carvalho, além do pescador, outros dois personagens compõem a cena poética, o mar e a esposa, que temerosa com o destino do marido chora na beira da praia vendo a sua partida. “O bonito nessa música é que o choro do bem de terra, a mulher, é um misto de sentimento de ausência (saudade) e de perda (morte). Essas são as duas possibilidades de vida do pescador, retornar e matar a saudade da mulher; e morrer no mar”, explica.

Diferente dos versos caymminianos, foi Souza quem chorou a partida da sua amada. Além da ausência, a vida do pescador é marcada por histórias intrigantes. Filho de um índio e de uma descendente de italianos, Souza é o terceiro de 13 irmãos. Cansado de sofrer maus tratos do pai, ele resolveu fugir de casa, aos 10 anos. Escondido, ele deixou a cidade de Coração de Maria e viajou 116 km em um ônibus intermunicipal até chegar à capital baiana. “Quando avistei o mar pela janela do ônibus, pela primeira vez me espantei com a imensidão e gritei: ‘Que lagoa grande’”, conta ele.

Com o dinheiro que conseguiu guardar de trabalhos que realizava na sua cidade de origem, Souza, apesar da pouca idade, afirma que a quantia foi suficiente para garantir a sobrevivência dele na cidade grande. “Eu estava na estação rodoviária quando um senhor se sensibilizou com a minha história, ele ganhou a minha confiança e me convenceu a ir para a casa dele. Depois disso, ganhei as ruas vendendo cafezinho pelo Centro da cidade”.

Foi vendendo café, em frente ao Teatro Castro Alves (TCA), no Campo Grande, que o pescador cresceu em meio a espetáculos e artistas, tendo a oportunidade, segundo ele, de ver o nascimento de dois grandes corpos artísticos do complexo, o Balé Teatro Castro Alves (BTCA) e a Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba).

Apesar das circunstâncias do destino, da infância difícil e do amadurecimento precoce, em terra, foi no mar, navegando, que Souza aprendeu a lidar com a vida e com a saudade daquela que um dia se preocupou com as longas viagens do pescador “Você aprende a ter paciência e a viver em paz. Quando você está navegando, todos os problemas da terra são esquecidos. Quando você volta, significa que seus objetivos foram alcançados, e esse é um momento de glória”, comenta Souza, antes de embarcar em mais uma viagem de cinco dias em alto mar.

 

É em alto mar que o pescador José Souza, 49, esquece as desventuras da vida. | Foto: Heitor Oliveira