Por Gabriel Soares
“De calor, de cor, de sal, de sol”. Essa era a Bahia que Gilberto Gil matava a saudade no coração, em pleno verão de 1971, quando o músico voltou do exílio e foi para a festa de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Bahia, em Santo Amaro da Purificação. Foi na casa de Dona Canô (1907 – 2012), mãe de Caetano Veloso, que Gil começou a compor a música Back in Bahia, ao reviver as interações da sua terra natal e outras coisas que não tinha na Europa. “A casa era uma extensão da rua. As portas ficavam abertas e as pessoas entravam, saiam, comiam, bebiam, compondo uma osmose muito grande entre lar e festejo”, conta o músico em entrevista exclusiva ao CORREIO de Futuro, construindo na sua imaginação o cenário daquele dia 8 de dezembro de 45 anos atrás.
Nervoso, querendo ouvir Cely Campelo pra não cair naquela fossa, Gil, junto com Caetano, viveu exilado por mais de dois anos na Inglaterra, após o regime militar discordar da postura adotada pelos músicos durante seus shows, em 1969. Na boate Sucata, no Rio de Janeiro, se apresentaram sob o dizer “seja bandido, seja herói”, ao lado da foto de Cara de Cavalo, suposto bandido da época. “Era muito diferente. Londres é Hemisfério Norte, bem norte, com a civilização muito racionalizada, mas com muita espiritualidade e pluralidade de linguagens”, reflete Gilberto Gil. Inicialmente, eles dividiram um sobrado na Rua Redesdele, nº 16, que foi batizada como Capela Dezesseis. Lá, reuniam amigos brasileiros, e de lá, partiam para shows de grupos como Rolling Stones.
Tanta saudade preservada num velho baú de prata dentro do artista foi tratada como prioridade no amortizar da distância entre a capital soteropolitana e a capital londrina. Gil conta que ao chegar a Salvador, algumas coisas eram fundamentais para se sentir, realmente, de volta à boa terra. “Salvador tinha essas coisa de, ao final da tarde, você passava pelo largo e sentia o cheiro do dendê fervendo, o cheiro do acarajé. Além do convívio com a família e as amizades construídas ao longo da vida”, explica o músico.
Junto com o mar, mar da Bahia, Gilberto Gil passou os primeiros dias ao retomar sua vida na soterópolis brasileira. “Ah… Eu voltei querendo ir ao Monte Serrat, à Ribeira, Boca do Rio, Rio Vermelho, esses lugares que, assim com outros, eu já frequenta antes da viagem”, relembra.
Lá em Londres, vez em quando, Gal Costa ia visitar os amigos e parceiros de Tropicalismo. Um pouco antes do exílio, em 1967, Gil, Caetano e Gal foram líderes desse movimento cultural, que além da música, envolveu outras expressões, como as artes plásticas, o cinema e o teatro. O Tropicalismo utilizou de inovações estéticas para abordar críticas sociais, temas do cotidiano e subversão de paradigmas, em momento paralelo à consolidação da Ditadura Militar. “Apenas fiquei aqui naquela época porque não tinha dinheiro para ir com eles. Além de ter que cuidar da minha mãe”, explica Gal.
De vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá, Gal Costa, juntamente com Tom Zé, era a artista residente no Brasil que liderara a resistência artística do movimento durante esse período, e com frequência deixava os solos baianos para ser a Bahia à vida dos jovens exilados. Esse ir e vir era o verdadeiro transporte de uma cultura, já que, para Gil, “ela levava o coração, mesmo, de tudo, para Londres. Além de ser baiana, brasileira, tinha tido um desabrochar de carreira, tinha participado do Tropicalismo conosco e era muito íntima”.
Por algum tempo, que afinal passou depressa, como tudo tem de passar, as viagens de Gal ao Reino Unido eram a ponte que a música usava para cruzar o Oceano Atlântico. “Cantava as canções deles aqui no Brasil e ia sempre visitá-los. Sentia muita angustia naquela época. Era difícil”. Mas, por outro lado, foi numa espécie de diplomacia musical que em 1970, ao retornar de um desses encontros, Gal Costa gravou as canções London London (Caetano Veloso) e Mini-Mistério (Gilberto Gil), frutos do intercâmbio e presentes no disco LeGal.
Do verde também tão lindo dos gramados campos de lá, de Londres, surgiu a oportunidade de cantar em outros países da Europa, e de ter gravado em uma fita o último show do exílio, em que o anfitrião – Gilberto Gil -, formando dupla com a sua visita – Gal Costa -, realizou na capital britânica. Apesar do evento ter acontecido na década de 70, o áudio da gravação só se transformou em disco quarenta e dois anos depois, em 2013, intitulado de Live In London ’71. “Aquele disco é um registro maravilhoso de um encontro musical que fizemos em Londres de maneira bem informal. Lembro bem daquele dia. Foi lindo”, diz Gal. A apresentação aconteceu no Student Centre da City University de parte da plateia era composta por pessoas que também deixaram o Brasil com a Ditadura Militar.
Como se ter ido fosse necessário para voltar tanto mais vivo musicalmente, o conceito de ecletismo que marca a carreira de Gilberto Gil ganhou base prática neste período. Em Londres, ele frequentava as casas de shows de jazz, eventos da música pop, mas faz questão de frisar que nunca teve jeito nem interesse para imitar o que faziam os ingleses e os norte-americanos. “Me serviu para pegar o espírito da coisa. Captei os elementos rítmicos, melódicos e harmônicos. Toquei guitarra elétrica pela primeira vez. Back in Bahia é o exemplo dessa absorção, ali se percebe claramente o que é uma embolada brasileira misturada com outras referências da época”, detalha Gil, explicando o que ele entende por “interconexões dos multi significados culturais”.
Naquela falta de juízo associada aos artistas da Tropicália pelos militares, surgia Back In Bahia, faixa escolhida para abrir o álbum Dois Amigos, Um Século de Música, gravado por Gil e Caetano em 2015 e indicado ao Grammy 2017 na categoria Álbum de World Music. O retorno de Gil à terra de suas origens resultou, também, em expressivos projetos, como os Doces Bárbaros (conjunto formado por Gil, Caetano, Gal e Bethânia, em 1976), e em apresentações históricas, como em 10 de janeiro e 20 de fevereiro de 1974, ao lado de Jorge Ben Jor, Luiz Melodia, Jards Macalé, Caetano Veloso e Gal Costa, no Teatro Vila Velha. De preso político, Gil tornou-se vereador de Salvador (1989 – 1992), presidente da Fundação Gregório de Mattos (1988) e ministro da Cultura (2005 – 2008). “Foi muito valioso”, resume Gil, em três palavras os cerca de 800 dias longe da sua raiz.