Sem roteiro!

Sem roteiro!

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Uma das coisas que eu mais temia em apresentações orais, durante a escola e a faculdade, era o improviso. Sempre me saí relativamente bem nessas ocasiões, apesar daquele nervosismo que acomete (quase) todo mundo. No entanto, apesar da boa performance, sempre estive ancorada em alguns ensaios e num roteiro extremamente detalhado de tudo que eu precisava falar – escrevia um verdadeiro discurso. Às vezes recorria ao papel, mas, normalmente, me dava bem apenas com os tópicos explicitados nos slides. Apesar de não olhar pro texto com frequência, sabia que o “discurso” estava ali a poucos centímetros dos meus olhos e ele poderia me salvar de qualquer lapso de memória.

Quando entrei na faculdade de Jornalismo e comecei a fazer entrevistas com fontes, para além dos seminários, segui no mesmo ritmo. Sempre fazia o meu roteiro de perguntinhas para o entrevistado. Entretanto, ouvia repetidamente dos professores que realmente era recomendado fazer uma lista com algumas perguntas, mas não poderíamos nos apegar inteiramente a ela – outras perguntas poderiam surgir durante a conversa, relacionadas a alguma fala importante ou pouco explicada pela fonte. Toda vez que eu escutava isso, me sentia incomodada pelo fato de “não se apegar tanto ao roteiro” fazer referência, necessariamente, ao improviso (por menor que ele fosse). Essa condição me amedrontava um pouco e eu sempre pensava o quão difícil seria improvisar em coberturas de pautas factuais, por exemplo. Lamentava profundamente pelos repórteres de TV que sempre precisam dar aquela improvisada numa entrada ao vivo rs.

Vale ressaltar que, quando digo improviso, não quero dizer armengue. Nesse contexto do jornalismo, saber improvisar está relacionado justamente a saber ser um bom repórter – usar a técnica, a experiência e a rapidez de raciocínio para conseguir o quer se quer durante a apuração.  O improviso não é um “jeitinho”, é característica de quem sabe o que faz.

Estou dizendo tudo isso para destacar duas lições que tirei em vivências no CORREIO: 1) com a experiência e a prática, as coisas se tornam muito mais fáceis e até dá a impressão de que você já nasceu sabendo fazer aquilo (abordei isso no texto passado quando falei sobre as manhas de decupar um áudio mais rapidamente); 2) estar inteirado do assunto e saber o que você quer para a sua matéria é o mais importante – isso tira o peso da necessidade de olhar para um roteiro no papel o tempo todo.

Ainda nas imersões do programa, fui cobrir duas pautas factuais: uma era a inauguração de uma geomanta com o vice-prefeito de Salvador, Bruno Reis, e o diretor da Codesal (órgão da Defesa Civil municipal), Sosthenes Macêdo. A outra era sobre o projeto “Anjinhos do Mar” – iniciativa organizada pelo 13º Grupamento de Bombeiros Militar da Bahia (13º GBM/BA | Gmar) com crianças de 7 a 13 anos. Durante as atividades, os pequenos tinham aulas sobre cidadania, respeito, primeiros socorros e segurança no mar.

Nas duas pautas, recebi as instruções do chefe de reportagem da manhã, Jorge Gauthier, e absorvi o que ele queria que eu trouxesse nas matérias. Anotei no bloquinho o que precisava apurar, mas não tive tempo de fazer roteiro, de escolher palavra e formular a melhor pergunta, com pontuação e afins… o tempo urge e o jornalismo não espera. O coração virou tambor e o estômago revirava rs! “A hora do improviso chegou, Marininha”, pensei. Na primeira pauta, precisava falar com pessoas públicas e influentes na cidade, na segunda, iria encarar crianças e a dificuldade de conseguir declarações mais concretas delas. O medo era de não conseguir trazer as informações necessárias por não saber lidar bem com o improviso e com as fontes. Na primeira pauta, ao sair do carro, recebi do motorista do jornal um “boa sorte” – agradeci, mas confesso que não sabia se ficava triste ou feliz com aquilo. “Será que ele tava com pena da caloura no jornalismo e resolveu amenizar a situação?”, me perguntei. Mas, entre mortos e feridos, todos se salvaram e eu consegui! De quebra, ainda me diverti bastante na pauta com as crianças (apesar de suar igual cuscuz e carregar uma sapatilha 10 kg mais pesada por causa da areia que entrou rs!).

Um outro episódio (que me fez ter a ideia para esse texto de hoje) aconteceu esta semana. Estamos na reta final do processo de feitura do nosso produto, apurando e entrevistando gente feito doidos rs. Na quarta-feira (6), tinha uma entrevista marcada com um casal, a fim de conhecer a história de amor deles. Pois bem! Essa conversa, que durou mais de uma hora e meia, aconteceu sem eu ter elaborado uma perguntinha sequer para eles. Eu sabia pouca coisa e realmente fui para conhecer tudo naquele momento (não tinha como fazer perguntas muito específicas sobre a vida deles). Só sabia que tinham uma bela história, que estavam juntos há um bom tempo e nada mais. Mas, uma coisa é certa, amigos: eu sabia muito bem o que minha pauta envolvia e pedia e, por isso, tinha noção do que precisava tirar da fala deles. As perguntas foram surgindo no momento da conversa e ela fluiu perfeitamente bem na base do improviso. E eu estava muito mais tranquila, diferente de tempos atrás.

Sinto-me bem, feliz e orgulhosa por reparar nesses mínimos avanços que a gente conquista na vida. As menores evoluções precisam ser comemoradas e valorizadas. Nesses quase três meses no CORREIO, pude perceber que eu posso, eu consigo e ninguém vai me dizer o contrário! Prática, compreensão dos mais experientes e oportunidade é a receita para o sucesso dos calouros.